segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Alegoria das metas.


A verdade é que para chegar em lugares altos, o voo precisa ser alto também. Sempre que voamos, corremos o risco de cair e quanto mais alto se voa, maior é a queda. Cair dói. Dói muito. Ainda mais quando a queda é grande.
No fim de tudo, alguns levantam e voam tão alto quanto antes, se não mais. E em cada altura alcançada, pode ser vista aquela força enorme de quem consegue levantar.
Existem outros que depois da queda começam a voar mais baixo, numa altura segura. Mesmo que isso os faça desistir de chegar em lugares altos. É um voo cômodo, que faz com que estejam acima da maior parte e que cheguem em lugares que nem todos chegam.
E ainda há aqueles que começam a se arrastar, com medo de novas quedas. A dor os consomem de tal forma que eles desistem de lidar com ela. Esses passam a criar os mitos de quão impossível é chegar em lugares tão altos, mitos que acabam fazendo com que muitos nem pensem em abrir as asas.
A queda nem sempre é opcional. Mais cedo ou mais tarde, todos os que voam caem. E cair, dói. Dói muito.
Por mais que a queda não dependa só da gente, a altura do nosso voo é uma escolha nossa.
Por mais que muitos já tenham chagado nos lugares altos, só têm força o suficiente para permanecer nesses lugares aqueles que, de cada queda, fazem um nova e mais alta subida.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Faces.


1. Só é possível ver lixo, um punhado de lixo. E um monte de vermes procurando algo que presta para se sustentarem. As poucas cores que ainda existem vão sumindo enquanto o marrom toma conta dessa paisagem mórbida que me cerca, onde o cheiro deixa de ser ruim e passa a ser insuportável. Os velhos cortes deixam o vermelho quando o pus aparece amarelando o resto da pureza; a dor pulsante não me permite esquecer da deprimente realidade em que me encontro.
A essência humana é vista em cada gesto e em cada palavra. Os sentimentos são liberados em cada passo, em cada respiração. Os poros berram em busca daquilo que sacia a sede. E quando, finalmente, as palavras viram rosnados e gemidos, entendo a raça que pertenço. 

2. Ah, grande teatro de sombras, onde estás? Tudo era tão lindo! Por que simplesmente não me contento? A luz do sol queima, a realidade me empurra de volta para fora do buraco, ela acaba com tudo, com tudo. Não deixa um sorriso, não deixa uma ilusão. Só a dor. A dor do sol queimando na pele. Só deixa essa maldita angústia de, de fato, enxergar.

3. Pediria ao sol que não esquentasse tanto, assim meu corpo não precisaria lutar tanto para permanecer frio, mas não peço! Não peço porque muitas vezes é só a luta que me mantém alheia à vontade da desistência. Poderia simplesmente esquecer. A dor diminuiria,  mas é justamente a dor que me faz lembrar de momentos felizes. E então, me falam sobre amor carnal! Como se um toque fosse mais importante do que uma palavra, como se a aproximação fosse mais pura do que a alma. A saudade move continentes, a palavra gera sentimentos e a distância gera amor. Por isso não peço para as águas do mar secarem ou para que as distâncias encolham, porque somente longe é que terei esse amor eterno por ti.

4. Passos largos e firmes para conseguir respeito. Sorrir com os olhos para que os outros temam. Sorrir com o canto da boca para chamar. Gargalhar para mostrar espontaneidade. Lábios duros para mostrar frieza. Postura para passar autoridade. Olhos calmos para conseguir confiança. E respirar, para nunca esquecer do controle.

5. Quem, raios, sou eu?

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ourivesaria.


Às vezes, acho que me lapidaram tanto que perdi minha essência e não mereço mais ficar entre pedras rústicas. Mas então, me junto às pedras preciosas e vejo que ainda não fui lapidada o suficiente.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Biologia.


O som se condensa e tudo vira uma coisa só. A respiração não tem mais som, a única prova de sua existência é o movimento abdominal que faz o livro subir e descer, subir e descer, subir...
O devaneio paira, as risadas lá fora são ouvidas com um tom de ironia. As piscadas são cada vez mais longas e o foco visual há tempos se perdeu.
Hifas, esporos, mitose, germinação...giram sem rumo e nós somos como a Alice no País das Maravilhas tentando encontrar nosso caminho. O devaneio ronda. As pálpebras pesadas lutam para manter o foco perdido. O pensamento luta para manter o devaneio sob controle... mas o devaneio está ali, atacando sua presa aos poucos, como um vírus que mata o organismo devagar.
As pobres presas estão sendo levadas, elas tentam fugir, mas não conseguem, porque ele está dentro delas. E o devaneio vence! Através do sono, do sonho e até da escrita.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Minutos finais.


Passos apressados ecoavam no silêncio da noite, mas não quebravam o silêncio ensurdecedor da mente. As poças de água gelada e os paralelepípedos atuavam como obstáculos de um menino que corria. Corria das pessoas. Corria dos problemas. Corria de si mesmo.
Até cair na esquina. Até cair em si. O dia daquela semana fora claro, limpo e com céu azul turquesa. A nota da prova fora vermelho sangue. O professor nunca considerava suas respostas e trabalho extra para não ficar de recuperação deixou de ser um possibilidade com a frase: " gente rica que nem você só tira nota baixa por folga".
Folga. As dificuldades, a dislexia.... não importa. Não mais. Não havia mais vermelho. Só a noite negra, a lua amarela e os prédios cinzas.
Prédios traidores! No começo, escondiam da sociedade julgadora ele e seus amigos. Amigos em pó, em erva, em comprimido. Amigos que o deixavam feliz, o faziam acreditar nas ilusões e, principalmente, o faziam esquecer. Mas eram amigos caros e estar com eles exigia cuidado. Agora, os prédios que tanto o apoiaram, o olhavam ameaçadoramente e, em cada janela, traziam olhos de julgamento.
Olhos como o do seu pai. Porque um dia ele cansou de depender dos amigos e do vermelho sangue no boletim e pediu ao pai ajuda, afinal, estava com dificuldades. Os olhos do pai faiscaram e e endureceram: "Dificuldades? Dificuldades tinha eu que precisava trabalhar para ter comida em casa! Você tem tudo o que quer! Deixa de ser vagabundo e resolva seus próprios problemas".
E quem estava lá para ajudar? Amigos. Amigos em pó, em erva, em comprimido. E prédios. Prédios que os escondiam. Mas agora a lua o sentenciava e nos prédios estava seu pai, estava seu professor. Como demônios. Demônios que se esgueiravam pelos cantos, pelas esquinas, pelos bueiros. Demônios em pó, em erva, em comprimido. Demônios do corpo e também da alma. Demônios da mente. Da mente de um menino que está morrendo de overdose.