sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Causos.


Um dia ele acordou e tinha alguma coisa diferente. Pela primeira vez, ele não sentiu aquele peso absurdo nos ombros. E ficou feliz, achando que o mundo havia mudado, sendo que, na verdade, quem havia mudado era ele.

Guarda-chuvas coloridos corriam, era cedo e as gotas caiam incessantes do céu. Eu entrei no ônibus meio seca, meio molhada. E ele estava lá. Aquele rapaz, encolhido num dos bancos. Estava lá com olhares hostis, fixados em todos que entravam, como um predador cuidando das suas crias. Olhava como se fosse a última coisa que fossemos ver. O frio na espinha me persegue até hoje. Nunca, nunca mesmo, vou esquecer daqueles olhos.

Ela tinha quatro opções aquela noite. QUATRO. E ela não escolheu nenhuma delas. Porque a opção que ela queria não estava ali. Por isso, decidiu ficar em casa. Como era uma menina boba!

Eu era criança quando vi aquela escada. As pessoas subiam e desciam, subiam e desciam. Eu não entendia. Não entendia porque as pessoas desciam depois de subir. Não entendia porque não podiam ficar lá em cima. Na verdade, talvez até hoje não entendo.

Sempre no mesmo horário ela corria. Eu a via passar do banco que estava sentada com aquela expressão de angústia. Dia após dia ela passava por lá. Correndo. Como se fosse a última coisa que fosse fazer, como se sua vida dependesse disso. Ela sempre estava lá. Correndo. Com aquela expressão de angústia.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Diálogos internos.

Deixe-o ir. Vamos, deixe logo!
Ele não cabe mais em você e você sabe disso, então por que você insiste em mante-lo aí dentro?
Vamos, você precisa deixa-lo ir logo!
Isso só está machucando mais, só está fazendo doer mais, para com isso e deixe-o ir.
Olha, eu sei que ele se mantém por perto, mas você fica feliz com isso? Não! Não fica, você sabe que não fica. Então deixe-o ir logo. Para que ficar sofrendo por uma causa que você já julga perdida?
Quer dizer, você julga perdida, né? Já passamos dessa fase, você sabe!
Então pronto, é só deixa-lo ir! Sem mais. Porque desse jeito, você só sofre! E você sabe disso!
Então vai lá, seja forte! Como você é e sempre foi, eu sei que você consegue! Sempre conseguiu, vamos lá! Rápido igual tirar band-aid! Vamos! 1, 2, 3 e fim! Aí você vai poder ser feliz de novo, sabe? Daquele jeito que você sempre foi. Vamos, deixe-o ir, vai doer no começo, talvez até doa por um tempo, mas vai passar e você sabe que vai!

Deixo-o ir. Vamos, deixe logo! Ele não cabe mais em você e você sabe disso, então por que você insiste em mante-lo aí dentro?

sábado, 12 de outubro de 2013

Lucy in the Sky with Diamonds.


E nessa vida existem marcas. Marcas de tempos, marcas de lugares, marcas de pessoas, marcas de coisas. Coisas tangíveis e intangíveis. Coisas desse plano, coisas transcendentais. Coisas tocáveis que levamos e outras que deixamos. Coisas que passaram, mas que ficaram na memória.

E enquanto eu estava lá, sendo marcada por tantas coisas, Lucy estava comigo! Sempre comigo. Lucy e eu.
Muitos podem dizer que ela é, literalmente, um peso nas minhas costas. De fato é. Mas quando o peso é parte da gente, fica mas fácil de carregar.
Lucy sempre levou tudo aquilo que era material demais para eu levar na alma. Levou livros, roupas, compras de supermercado, presentes. Levou casacos, comida, computador.
Já foi mala de viagem, mochila de escola, acessório de vestuário e travesseiro. Já dormiu debaixo da minha cabeça para eu poder descansar, entre as pernas para não ser roubada e no armário para não ocupar espaço.
Mas o ponto, é que ela sempre esteve lá!
Lucy e eu, sempre comigo, em todas as minhas viagens.
Meio suja, meio rasgada, meu bonita, mas sempre lá: forte e segura; dando suporte logo ali nas minhas costas.
Lucy e eu pelo mundo! Eu andando e ela repetindo o seu eterno mantra "How to survive".
Lucy e eu, porque ela me mostrou que é o suficiente para levar tudo de material que eu preciso. Porque a Lucy, só a Lucy, a Lucy in the sky with diamonds, é que me ensinou a me desapegar de outras mil coisas para me apegar a ela: levar mil coisas sem Lucy ou poucas coisas na Lucy?
Lucy e eu, Lucy comigo, em todas as minhas viagens: as longas, as curtas, as próximas, as distantes, sozinha, com mais gente.
Lucy e eu. Sempre! Lucy que me marcou. Marcou muito! Porque Lucy e eu temos marcas do tempo, marcas dos lugares, marcas das pessoas, marcas das coisas. Marcas iguais, marcas dos mesmo momentos, das mesma vivências. Porque ela sempre estava lá, Lucy sempre comigo.
Porque Lucy e eu fomos marcadas pela vida, enquanto marcávamos uma a outra.

sábado, 31 de agosto de 2013

Embora.

Ir embora.
Pelo mero prazer de ir.
Ir embora. Porque não há razões para ficar. E que razão melhor que essa para ir?
Ir embora. Só ir. Como se nada existisse e como se algo pudesse existir.
Ir. Só ir. Deixar, partir.
Sem mais.
Ir embora. Porque ir é bom.
Ir, porque não há o que nos prenda, não há o que não nos deixe.
Então... pra que ficar? Algumas ilusões não são boas o bastante para nos enganar.
Então... vamos ir. Ir embora.
Porque pode não haver nada ao ficar, mas muito ao ir.
Ir embora. Porque o mundo está aí! E ele é nossa casa e...

Ah, como é bom estar em casa!

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Casa.


Eu queria ir para casa. Mas eu não sei onde ela está.
Não sei.
Eu queria saber onde está minha casa, para eu voltar. Eu queria muito.
Porque eu cansei de não estar em casa.
Tudo bem, eu passei minha vida sem estar em casa, mas eu não sabia o que é se sentir em casa.
O problema é que agora eu sei. E quero voltar. Voltar para casa.
Mas como se eu não sei onde ela está?
É que é preciso estar em casa para sermos a gente. Não podemos ser nós mesmos em qualquer lugar. Não! É preciso estar em casa, é preciso se sentir em casa.
Mas como se não sabemos onde ela está?

Eu preciso descobrir! Eu preciso estar em casa.
Preciso. Preciso muito.
Porque só assim vou poder ser eu mesma de novo.