quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Fora da caverna.

Maldito conhecimento que me faz enxergar o mundo, que me faz ver a realidade, que me corroí e me liberta dessa alienação. E ao mesmo tempo me prende na transgressão. Afinal, quem uma vez sentiu o calor da verdade na pele, não volta para a sombra da ignorância.
Ah, como eu queria que as sombras da caverna me tivessem sido suficientes. Suficientes para me entreterem, para me mostrarem o quão belo e simples é o mundo. Mas não. Eu tive que querer mais, tive que não me contentar.
E aquela pílula vermelha me pareceu tão bela! Quando a tomei... o efeito foi tão rápido. Mal sabia eu que o sofrimento seria cada dia pior. Porque a verdade dói. Porque a verdade mostra o quão ignorante você continua sendo e o quão deploráveis os seus objetivos eram.
E mais: faz com que você questione. 
Um punhado de perguntas que jamais terão respostas se apoderam dos seus sentidos, da sua mente e da sua voz. E então... você desiste de resistir, desiste de ser forte, desiste de ser uma pessoa feliz. E se torna uma pessoa crítica. Mal sabendo que essa desistência,  na verdade, foi o auge da sua força: a decisão de que algo é maior do que si mesmo.
Mal sabendo que jamais teria a dádiva da alienação de novo.
Porque agora... você pensa. Agora você sabe. E, mais uma vez, a realidade não é simpática, agradável ou bonita.

Mas é real, não é? E isso basta.
Por mais que as vezes me dê raiva essa minha escolha, não me arrependo.
Por mais que o peso da responsabilidade quase nos esmague, temos que continuar lutando.
Porque uma pequena mudança, por menor que seja, nessa realidade pode mudar tudo.
E só pessoas como nós podem fazer essas mudanças.
E pela primeira vez fica claro que o mundo realmente precisa de nós.

E como precisa!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sapatos de boneca.


Já estava na hora de tirar os grampos do cabelo. Vesti minha saia de corações pretos, coloquei meu colar de pérolas, uma fita na cabeça e um sorriso triste nos lábios. Não que desejasse demonstrar um sorriso triste, mas tinha que esconder (ou pelo menos tentar esconder) alguma coisa e, bem, não sei disfarçar a tristeza dos olhos.
Andei com passos lentos pelas calçadas, o som que produziam abafava o turbilhão de pensamentos que ensurdecia minha mente naquele silêncio insuportável da noite. Os olhos? Sempre marejados.
Quartas feiras à noite me faziam um pequeno mal, mas agora não fariam mais: chegara a hora de decidir por uma eterna esperança ou uma completa indiferença.
Parei no banco certo e o ponteiro maior do relógio chegou ao quatro.
Dez e vinte. Quarta feira. Noite escura e quente. Estaria tudo certo, se não fosse pela solidão. Não que eu não soubesse que ele não estaria lá, mas também não sabia que não estaria. No fundo só havia ido até lá para acabar de vez com aquela esperança que me fazia feliz em platonismo.
As lágrimas finalmente escorreram dos meu olhos, borraram meu meu rímel e o lápis preto. O suor frio que me percorreu durante o um minuto de espera cessou por completo junto com o meu sorriso: agora os lábios com batom vermelho eram apenas sérios.
A indiferença estava na linha da vitória, ela venceria, mas não esperava pela minha virada repentina. Uma virada que fez mudar o curso e o futuro e me faz hoje possuir uma opinião Naturalista do mundo escondida ao meio de ilusões Românticas. Porque nessa virada súbita me vi refletida no vidro de uma loja de sapatos.
Ah, como eu estava linda. A pele como porcelana contrastava com a noite, os lábios vermelhos combinavam com os olhos borrados, as lágrima refletiam as pérolas no pescoço e o cabelo cacheado escorria pelos ombros num movimento constate. Via tudo refletido naqueles sapatos à venda: os diálogos, os sorrisos. Via as palavras escritas nas cartas naquelas tabelas de preço, via a ousadia nas botas de cano alto, a sutileza nas sapatilhas caras, a voz no Scarpin marrom. Tudo aquilo visava à indiferença e sua vitória. Vi o mundo girar em torno de sentimentos e sapatos; eu girava com eles enquanto cedia ao fim do meu mal de quartas feiras.. até que meus olhos focalizaram em algo daquele belo reflexo e eu precisei disso para chegar ao fim daquela noite.
Porque a indiferença estava comemorando a sua vitória cedo demais, afinal não sabia que eu era imprevisível e muito menos que a esperança me conhecia o suficiente para chegar ao ponto de se estabelecer num detalhe de um reflexo de uma loja de sapatos.

É, a indiferença teria vencido se não fosse pelos meus pés calçando aquele par de sapatos de boneca.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Insatisfação.


O que é a monotonia se não o fato da intensidade tornar-se cotidiana?
O desejo insaciável da insatisfação nos move, como numa constante luta por algo que não teremos, cuja a vitória é a própria luta e não o adversário nocauteado.
Porque quando está nocauteado há um lapso, um segundo, de felicidade plena e depois vem, se esgueirando pelas entranhas, a satisfação com o sorriso eterno da comodidade fixado em seus lábios.
Mas aquele lapso de felicidade nem sempre é suficiente. Vem, então, aquele sentimento de tédio, como o dos cavaleiros arturianos nas épocas de paz. Falta o erro, o fracasso, o medo! Sim, aquele medo que a cada passo fazia o coração saltar, as mãos suarem e as pernas tremerem. Falta aquela decepção de, quando enfim se chega ao fim, ver que seu objetivo vai além.
Falta aquela conquista que nos deixa sem saber como agir; falta a coragem mostrar sua face, ao ver que a ação não foi suficiente, para lutarmos. Lutamos, ah sim, nós lutamos. Lutamos para que a próxima felicidade dure um pouco mais, mesmo sabendo que trata-se de segundos.
E é essa escassez de insanidade, de heróis e poesias; essa aceitação da comodidade, a ignorância pela busca do desejo enlouquecedor e a sobriedade da consciência que faz tão mórbida a existência e tão sórdida a sociedade desse mundo atual, porque ao estendermos aquele lapso de felicidade, criamos a indiferença e ela... bem, ela corrói! Corrói nossa própria opinião.


Isso é que me insatisfaz. Você não imagina o quanto.


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

A lenda da ninfa Halana


Havia uma floresta cujo sol da manhã abrilhantava as águas dos rios e que o crepúsculo trazia a nostalgia do dia que passou e a ansiedade pelos brilhos das estrelas aparecerem.
E era lá que as ninfas e sátiros bailavam, eles com suas flautas tocavam as mais lindas melodias, enquanto elas usavam seus galhos, um pequeno pedaço de madeira como uma varinha mágica, para abrir os mais diversos tipos de flores. Durante os dias, os sátiros assustavam e pregavam peças nos humanos, que por sua vez, não conseguiam ver essas belas criaturas. Achavam que a floresta era mal assombrada e fugiam assustados. As ninfas riam e não entendiam como podiam achar aquela floresta assustadora, sendo ela tão linda e cheia de vida.
Numa bela noite os entes da floresta decidiram fazer uma festa. Sim, uma festa que começaria quando os primeiros raios de sol aparecessem e terminaria um pouco depois dele se por. Na manhã seguinte lá estavam as ninfas dançando como o vento no outono e os sátiros cantando como os pássaros e as águas do rio. Naquele dia a floresta estava em festa e naquele dia Denisia viu Danam pela primeira vez. Ela viu seus movimentos, seus olhos e se apaixonou. Isso mesmo, se apaixonou como ninfas se apaixonam por sátiros: um amor físico, mas que supera qualquer amor platônico. Passou o dia naquele platonismo, vivendo todas as ilusões que o amor permite... até que a festa acabou! Todos já haviam ido embora, mas Danam decidiu descansar numa árvore por ali e foi então que ela apareceu: Halana. Ela dançava, sob a lua e as estrelas, dançava com passos leves e mostrava uma intensidade que Danam jamais havia visto e ele se apaixonou. Não como ninfas se apaixonam por sátiros, mas como sátiros se apaixonam por ninfas: um amor intenso e grandioso. E como se tivessem ensaiado, foi dançar com ela, onde a cada passo, ela usava seu galho para abrir flores, flores de todas as cores que os transformavam no mais perfeito casal apaixonado, pois ela também sentiu em Danam aquele amor.
No dia seguinte os seres da natureza já haviam espalhado a notícia do novo amor na floresta. Todos caíram numa felicidade imensa, menos Denisia. A dor que sentia era insuportável: uma ninfa que ama um sátiro jamais amaria outro. A tristeza e a raiva a invadiram. Como poderia ela suportar ver os dois juntos? Como viveria assistindo uma felicidade que a pertencia? Então decidiu: transformaria Halana em humana, assim nunca mais estariam juntos. Era uma magia forte e Denisia sabia: assim que realizada, deixaria a vida. Mas uma vida sem Danam nunca seria uma vida.
Num por do sol Denisia, com lágrimas nos olhos, fez o feitiço. Seu corpo virou folhas que voaram com o vento, enquanto Halana perdia todos os traços de ninfa, acordando numa floresta escura, sombria, sem suas vestes de ninfas e sem seu galho. Sabia que era humana e correu, correu com medo das assustadoras árvores da floresta.
Quando Danam voltou uma dor imensa correu pelo seu corpo, pois onde estava Halana havia apenas sua veste de ninfa e o galho que as ninfas nunca deixam fora de sua companhia. E ele chorou. Chorou como nenhum sátiro já havia chorado, fazendo com que a floresta mergulhasse na maior tristeza de todos os tempos.
Foi então que Exília, uma ninfa amiga de Halana, decidiu procurá-la e a encontrou. Num êxtase foi até ela, mas então percebeu que Halana havia se tornado uma humana. Passou a noite velando-a e na manhã seguinte, quando Halana decidiu procurar um lugar seguro, usou todas as suas forças da natureza para guiá-la até a clareira onde viviam.
Quando Danam a viu, uma mistura de felicidade e angústia o dominou. Lá estava ela, a sua Halana. Queria abraçá-la, mas ela olhava ao redor, com o sofrimento marcado nas faces. Um desespero tomou conta dele, ela não o via. Então, pegou o galho de Halana, que havia guardado, e abriu  uma flor ao lado dela. Um sorriso apareceu no rosto da nova humana e ela olhava ao redor em busca de algo, ele abriu outra flor e mais outra e ela girava, girava abraçada ao ar, porque sabia que Danam estava lá. Não importava que não o visse, só o fato de saber de sua existência já bastava e ele mostrava que a amava, abrindo flores e mais flores.
Assim, a floresta voltou naquela felicidade, na felicidade de dois amantes, que jamais estariam juntos, mas que sempre se amariam, afinal, enquanto as flores se abrissem, Halana saberia que Danam sempre estaria ao seu lado.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Máscaras.



Não chorei.
Não gritei.
Não hesitei.
Escutei o que não quis escutar.
Senti minha esperança desmoronar.
Vi o sentimento da infelicidade tomar assento em mim.
Não demonstrei.
Não me importei.
Cansei.
Mas não cedi.
Fui completa.
Fui perfeita.
Fui forte.
Impus meu respeito.
E tive que aprender a conviver com a eterna solidão.