sábado, 8 de março de 2014

Sobre choros.

Eu choro.
Mas choro pela tristeza que não tive, pela pessoa que não fui.
Eu choro por não ter amado quem queria ter amado, choro por não ter sido a amada que ele amou.
Choro pelas pessoas que não conheci, pelos amigos que não tive, pelos diálogos que não existiram.
Eu choro por não ser o que eu queria ser.
Choro por no fim do dia não sentir o que queria ter sentido.
Eu choro por tudo aquilo que não foi meu, por tudo o que não perdi.
Choro por toda essa solidão e pela ausência dela também.
Choro por ainda querer ser alguém, sem nunca ter sido nada.
Choro por ainda pensar numa vida, sendo que nada vivi.
Choro pela ausência de tristezas, pela ausência de motivos para chorar.
Choro porque não existe problema.
Choro por recomeçar sem ter terminado, muito menos começado.

Mas hoje o céu decidiu chorar comigo.
Hoje não choro sozinha, hoje choro com as lágrimas das nuvens.
Hoje choro com um mundo do qual eu não sou digna, não por não o ter vivido, mas por acreditar que não o vivi.
Hoje o céu chora comigo, porque eu o decepcionei.
Mas eu não quero chorar pela decepção do mundo.

Choro por eu ter sido eu.
Choro por tudo o que consegui.
Choro pelas coisas que eu quero.
Choro pelas pessoas que conheço.
Choro pelo o pouco que eu tive.
Choro pelo o que vivi.
Choro por mim.
Choro pelo mundo.
Choro pelo céu, que hoje decidiu chorar comigo.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Consolo.


São cinco oitavas, sem mais. Sempre foi o suficiente, talvez até mais que o suficiente.
Aquela numa oitava acima era difícil, era para momentos em que não se queria pensar, em momentos que só se queria pensar em outra coisa.
Já as primeiras, eram diferentes, eram como uma abraço ou como um "vai ficar tudo bem". Era para quando se precisava de colo.
Mas tinham aquelas rápidas e agitadas, um tanto complicadas também! Ah, essas eram para quando algo não cabia na gente! Nossa, parecia que estávamos gritando aos céus tudo aquilo que queríamos dizer.
E tinham aquelas pesadas, uma oitava abaixo. Doía, cada nota. Mas era porque elas entendiam, elas compreendiam e, assim, nos faziam compreender também! Eram aquelas com quem a gente é sincero, sabe? Aquelas que a gente procura quando entende a situação e está disposto a enfrentar, por mais difícil que seja.
E há outras! E muitas! Aquelas que aprendemos a tanto tempo, que fazem parte de nós! Essas são como diálogos internos, nem percebemos que estão ali; têm aquelas que por um motivo bobo te faz sorrir, só porque você gosta do som! Essas são ótimas, porque (mesmo sabendo de cor) você pega a partitura e lê nota por nota e até repete algumas partes, mesmo sem ter errado, porque é bom! Só por isso!
E elas sempre estão ali! Todas as  oitavas, todas as partituras! As mais usadas, as menos usadas... sempre ali! Todas juntas, em sois e mis, sustenidos e bemóis, claves de sol e claves de fá, numa mistura louca e insana. Sempre ali, sempre lá. Esperando. Esperando qualquer coisa para poderem consolar.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Causos.


Um dia ele acordou e tinha alguma coisa diferente. Pela primeira vez, ele não sentiu aquele peso absurdo nos ombros. E ficou feliz, achando que o mundo havia mudado, sendo que, na verdade, quem havia mudado era ele.

Guarda-chuvas coloridos corriam, era cedo e as gotas caiam incessantes do céu. Eu entrei no ônibus meio seca, meio molhada. E ele estava lá. Aquele rapaz, encolhido num dos bancos. Estava lá com olhares hostis, fixados em todos que entravam, como um predador cuidando das suas crias. Olhava como se fosse a última coisa que fossemos ver. O frio na espinha me persegue até hoje. Nunca, nunca mesmo, vou esquecer daqueles olhos.

Ela tinha quatro opções aquela noite. QUATRO. E ela não escolheu nenhuma delas. Porque a opção que ela queria não estava ali. Por isso, decidiu ficar em casa. Como era uma menina boba!

Eu era criança quando vi aquela escada. As pessoas subiam e desciam, subiam e desciam. Eu não entendia. Não entendia porque as pessoas desciam depois de subir. Não entendia porque não podiam ficar lá em cima. Na verdade, talvez até hoje não entendo.

Sempre no mesmo horário ela corria. Eu a via passar do banco que estava sentada com aquela expressão de angústia. Dia após dia ela passava por lá. Correndo. Como se fosse a última coisa que fosse fazer, como se sua vida dependesse disso. Ela sempre estava lá. Correndo. Com aquela expressão de angústia.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Diálogos internos.

Deixe-o ir. Vamos, deixe logo!
Ele não cabe mais em você e você sabe disso, então por que você insiste em mante-lo aí dentro?
Vamos, você precisa deixa-lo ir logo!
Isso só está machucando mais, só está fazendo doer mais, para com isso e deixe-o ir.
Olha, eu sei que ele se mantém por perto, mas você fica feliz com isso? Não! Não fica, você sabe que não fica. Então deixe-o ir logo. Para que ficar sofrendo por uma causa que você já julga perdida?
Quer dizer, você julga perdida, né? Já passamos dessa fase, você sabe!
Então pronto, é só deixa-lo ir! Sem mais. Porque desse jeito, você só sofre! E você sabe disso!
Então vai lá, seja forte! Como você é e sempre foi, eu sei que você consegue! Sempre conseguiu, vamos lá! Rápido igual tirar band-aid! Vamos! 1, 2, 3 e fim! Aí você vai poder ser feliz de novo, sabe? Daquele jeito que você sempre foi. Vamos, deixe-o ir, vai doer no começo, talvez até doa por um tempo, mas vai passar e você sabe que vai!

Deixo-o ir. Vamos, deixe logo! Ele não cabe mais em você e você sabe disso, então por que você insiste em mante-lo aí dentro?

sábado, 12 de outubro de 2013

Lucy in the Sky with Diamonds.


E nessa vida existem marcas. Marcas de tempos, marcas de lugares, marcas de pessoas, marcas de coisas. Coisas tangíveis e intangíveis. Coisas desse plano, coisas transcendentais. Coisas tocáveis que levamos e outras que deixamos. Coisas que passaram, mas que ficaram na memória.

E enquanto eu estava lá, sendo marcada por tantas coisas, Lucy estava comigo! Sempre comigo. Lucy e eu.
Muitos podem dizer que ela é, literalmente, um peso nas minhas costas. De fato é. Mas quando o peso é parte da gente, fica mas fácil de carregar.
Lucy sempre levou tudo aquilo que era material demais para eu levar na alma. Levou livros, roupas, compras de supermercado, presentes. Levou casacos, comida, computador.
Já foi mala de viagem, mochila de escola, acessório de vestuário e travesseiro. Já dormiu debaixo da minha cabeça para eu poder descansar, entre as pernas para não ser roubada e no armário para não ocupar espaço.
Mas o ponto, é que ela sempre esteve lá!
Lucy e eu, sempre comigo, em todas as minhas viagens.
Meio suja, meio rasgada, meu bonita, mas sempre lá: forte e segura; dando suporte logo ali nas minhas costas.
Lucy e eu pelo mundo! Eu andando e ela repetindo o seu eterno mantra "How to survive".
Lucy e eu, porque ela me mostrou que é o suficiente para levar tudo de material que eu preciso. Porque a Lucy, só a Lucy, a Lucy in the sky with diamonds, é que me ensinou a me desapegar de outras mil coisas para me apegar a ela: levar mil coisas sem Lucy ou poucas coisas na Lucy?
Lucy e eu, Lucy comigo, em todas as minhas viagens: as longas, as curtas, as próximas, as distantes, sozinha, com mais gente.
Lucy e eu. Sempre! Lucy que me marcou. Marcou muito! Porque Lucy e eu temos marcas do tempo, marcas dos lugares, marcas das pessoas, marcas das coisas. Marcas iguais, marcas dos mesmo momentos, das mesma vivências. Porque ela sempre estava lá, Lucy sempre comigo.
Porque Lucy e eu fomos marcadas pela vida, enquanto marcávamos uma a outra.