sábado, 21 de novembro de 2015

O dia que conheci o Jow


Essa história, aconteceu a algum tempo. Um tempo que eu estava longe. E quando eu digo longe, é mais do que apenas de distância. Eu estava longe desse mundo. Eu estava num momento de realizações, um momento que eu cansei de ver o mundo na minha frente e ficar parada. Eu precisava conhecer. Eu precisava viver. Eu precisa ir embora. Sempre.
Fazia cinco dias que eu tinha chegado na Bahia e tinha decidido me aventurar pelo interior dela. A Bahia sempre foi um lugar que me interessou e quis conhecê-a direito. A cultura, as pessoas, a terra. E lá estava eu! No interior.
Eu chegue naquela cidade perto da hora do almoço, depois de cinco horas em um ônibus bem ruinzinho. Era um dia quente e meu estômago doía de fome. Foi aí que eu vi uma feira. Fiquei encantada, óbvio. É aquele tipo de feira fofa, sabe? Bonitinha, tradicional, cheia de coisas interessantes. Eu comprei algumas frutas para comer e achei uma diferente, que eu nunca tinha visto antes. Assumo que não entendi quando a mulher me falou o nome, mas falei que entendi porque queria comer logo. Eu estava com fome. Muita fome.
Aí, eu sentei na guia, em um pedaço depois da feira,  sem muita gente. Comi umas bananas, uma laranja e fiquei observando aquela fruta estranha, de casca meio grossa. A verdade é que eu não fazia ideia de como comia aquilo, mas fiquei lá especulando. Eu estava bem distraída quando ele apareceu. Um homem em pé do meu lado.
Eu tenho que dizer que quando um homem maltrapilho, desses sujos e com roupas rasgadas, chegava perto de mim, eu tentava sair de perto. Mas a vida de mochileira me fez ser mais receptiva, eu já estava no meu segundo mês de mochilão, estava com calor e ainda com fome. Eu olhei pra ele como uma amiga que entende, como uma igual, e ele falou:
-Precisa de ajuda aí, moça?
Sentou do meu lado, bem ali na guia, eu ele e a minha mochila. Pegou minha fruta com um "minha mão ta limpinha, tá?", descascou e me deu com um "só comer agora". E ficou lá, me olhando, enquanto eu comia a fruta e babava e me sujava igual criança de cinco anos tomando sorvete.
Eu agradeci, ele sorriu. Ele falou do tempo, eu disse que achava que estava calor. Ele disse que eu falava estranho. Eu disse que era e São Paulo, que tinha mudado para Minas Gerais, mas que continuava com sotaque paulista. Ele riu e disse que não entendia dessas coisas não. Disse meu nome. Perguntei o dele. Ele disse "sei não".
-Como não, jow?
Ele riu, disse que "disso aí que eu falei" nunca chamaram ele não. Eu ri. Ele disse que gostou, que podia ser assim, que o som era bonito. Jow.
Ele perguntou o que eu tava fazendo lá, eu disse que saí viajar, mostrei a minha mochila para ele, minha parceira, companheira de viagens. Ele gostou. Eu contei que eu estudava arquitetura, que estava de férias e que decidi sair por aí. Ele riu e disse que não entendia dessas coisas não.
Aí eu falei:
-Ah, arquiteto faz projeto, sabe? Assim, quando o pedreiro vai fazer uma casa ou prédio, ele precisa ver tipo um desenho antes, pra saber como fazer, então, arquiteto é a pessoa que faz o desenho da casa pra pessoa que vai morar lá depois.
Aí ele ficou feliz:
-Eu tenho casa!
E me puxou pelo braço, com mochila e tudo e me levou uns três quarteirões para baixo, era tipo um beco, com uma placa de zinco no fim, um colchão velho, umas coisas jogadas. Ele olhou pra mim, como quem pede aprovação.
Eu sorri. Ele sorriu.
Eu perguntei desde quando ele morava ali.
Ele disse que não lembrava não. Lembrava que um dia tava na rua, era moleque ainda, disse que não tinha onde dormir e ia chover. Aí um homem deu a placa pra ele. Ele disse que não sabia muito das coisas não. Que as pessoas ali davam dinheiro para ele. Ele perguntou como desenhava uma casa. Eu disse que era mais difícil do que parecia. Ele achou engraçado. Aí eu falei "quer ver minha casa?". Ele me olhou desconfiado. Eu sorri e tirei a barraca das costas. Ele achou o máximo. Perguntou se eu morava lá mesmo. Eu disse que por enquanto sim, mas que as vezes dormia em pousadas, albergues... o que tivesse, mas que tinha uma casa de verdade, lá na minha cidade, com cama coberta, mamãe e papai. E ele falou:
-Mas então, tá aqui nessa sua casa esquisita por que?
Aí eu contei que aquela vida não era para mim, que eu precisa de aventura, de uma vida mais agitada. Disse que eu gostava de conhecer pessoas e lugares e que sentia uma necessidade meio inexplicável de sair por aí pelo mundo, mesmo que isso significasse ficar um tempinho longe de casa. Ele falou que eu era uma menina boba, me disse que se tivesse uma casa de verdade com cama, não ia sair nunca mais dela. Mas que daquilo, ele não sabia não, não era pra ele. Eu disse que poderia ser, disse que um dia poderia desenhar uma casa pra ele, quem sabe?
Foi aí que os olhos deles brilharam: "Verdade, moça?"
-Claro, jow. Só falta uns anos para eu me formar.
Escorreram lágrimas dos olhos do Jow. Ele disse que sempre quis uma casa de verdade, com cama e lugar de por roupas, podia ser pequena, não tinha problema.
Jow me disse que eu era uma menina boa. Disse que eu era abençoada. Disse que ia esperar ali, sabe? Na casa dele, que ele fez questão de me mostrar três vezes como chegava lá, para eu não esquecer quando fosse levar o desenho da casa para ele.
Eu fui embora dali naquela tarde, depois de ainda conversar muito com o Jow.
Mas dessa vez, eu estava diferente. Sabe, eu amo ir embora, amo mesmo. Acho que a sensação de ir embora é uma das mais maravilhosas, aquela sensação de uma nova aventura. Em toda cidade que eu passava, eu saía com uma vontade maior de ir embora, com mil motivos para querer conhecer outros lugares incríveis, outras pessoas incríveis. Mas essa era a primeira vez que eu ia com a felicidade de saber que um dia eu iria voltar. Ia voltar para a minha casa. Ia voltar para a faculdade. Ia voltar para a minha vida. Eu estava feliz, porque ia voltar a estudar, ia me formar. Ia ser uma arquiteta.
Eu estava feliz, porque tinha mais de mil motivos para ir, mas o Jow tinha me dado um para voltar. Sim, eu precisava voltar, porque precisava levar o desenho de uma casa para o Jow.

2 comentários:

  1. Eu conheci um Dim, lá em Ouro Preto, menino bom, do bem.
    Por o pé na estrada, tem gente que nasce pro mundo, mas precisa ter um lugar pra chamar de casa. Eu tenho uma meta! Passar por cada estado brasileiro e ter ao menos uma história pra contar sobre cada um deles.
    Estou empolgado com os intervalos mais curtos entre as postagens. Continue! :)

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    1. Aguardo ansiosamente por essas histórias! hahahaha

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Brindará também o surreal?